domingo, 30 de dezembro de 2007

Monólogo

Aceite. O amor não lhe cai bem.

É preciso leveza de alma para amar e a sua está muito acima do peso. Lhe falta um quê de Vinícius para o amor, uma predisposição dos sentidos, uma adaptação temporal e um vestígio de Clarice em suas estantes.

O amor exige dom, é preciso talento para exercê-lo e liberdade de alma para senti-lo ... e você, minha cara, ainda está amarrada, confinada ao seu relicário e presa às suas sombras arraigadas nos próprios pecados ... meu conselho? Desista ... vá escrever poesias, cortar o cabelo, dançar ou simplesmente dormir por alguns anos ... esqueça essa bobagem de amor, ele não lhe veste bem.

À falta de luz o amor se esconde, no excesso ele desaparece ... tal sentimento exige meia luz ou um certo de grau de miopia, uma visão um pouco nebulosa, distorcida ... quem ama precisa aceitar essa condição. Não se pode iluminar demais o amor pois assim perde-se o encanto, se vê além do que deve ser visto, se racionaliza o que deve ser apenas sentido ... ma belle, você é alheia a essa irracionalidade, ela te enfraquece e você não suporta a vulnerabilidade ... então vá aprimorar seu italiano e deixe o amor aos apaixonados.

Sim minha querida, para se obter o direito ao amor é preciso ter o espírito apaixonado de Quintana, uma tendência nata à rima e não à prosa ... acredite-me você não se enquadra. Fique com a física, a matemática, os prédios e os discursos reflexivos, do resto simplesmente esqueça!

Você coleciona armaduras enquanto o amor exige nudez, prefere o frio ao calor, vive no escuro, esfrega os olhos, quer mais saber do que sentir ... você se afasta do amor e ele não corre atrás dos seus fugitivos ... pense bem, isso não é tão mal ou é?

Você já conhece o processo por inteiro ... mãos dadas, promessas, sonhos, segredos, silêncio, declarações, filmes, canções, noites, dias, flores, cartas e, por fim, o fim. Um dia tudo acaba, assim de uma hora para outra ... aí vem a rotina e as dúvidas, essas que já convivem com você diariamente... então, talvez, você só esteja sendo prática e pulando algumas etapas que tornam-se dolorosas demais ao longo dos anos ... pode ser apenas isso, uma atitude inteligente.

Contudo, por outro lado, pode ser também que você apenas não tenha ajustado-se ao amor por ser covarde demais (ah, tinha esquecido de mencionar: o amor prima por almas corajosas) ... talvez você esteja apenas fugindo da vida por não saber vivê-la e, se assim o for, aceite meu anjo ... o amor não lhe cai bem!!!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Macho Dominante


As mulheres são chatas ... é verdade, sempre defendi a natureza objetiva dos machos da espécie humana, mas alguns detalhes ainda insistem em perturbar minha alma feminina. Desde criança percebi que a brincadeira em que o sexo oposto participa ganha uma seriedade maior. Jogos, dizia meu irmão, não podem ser interrompidos no meio, é preciso que haja um vencedor antes de recolher o tabuleiro e se atracar no sorvete. É preciso contar os pontos, fazer tabela, enaltecer o vitorioso, debochar do perdedor, marcar a revanche e disseminar a informação. Isso é tradição, um ritual masculino de confirmação da sua superioridade, o macho dominante foi qualificado e declarado!

Ok, entendido ... lição da infância: homens são competitivos, precisam ser reconhecidos pelos resultados que apresentam e, para eles, mais importante que sua vitória é a derrota do adversário. Tudo bem, competitividade também é uma característica recorrente no mundo feminino, o que torna essa primeira lição apenas uma introdução ao fantástico e instigante mundo da testosterona.

Os verdadeiros desafios surgem anos mais tarde quando as brincadeiras abandonam os tabuleiros e partem para os lençóis ... o sexo, o jogo preferido entre a maioria dos adultos de ambos os gêneros, torna-se pano de fundo para as mais estranhas manifestações comportamentais dos homens, mas deixo claro que esta é uma afirmação absolutamente parcial de uma mente feminina que foi baseada apenas em declarações de mulheres que, assim como eu, ainda tentam entender as peculiaridades do seu companheiro de jogo.

No sexo o macho dominante já está estabelecido, a fêmea torna-se o símbolo social que representa sua vitória e sugere que os adversários já foram derrotados. O ritual da lição um já foi cumprido e é aqui que as regras mudam e a competitividade se apresenta com nova roupagem. È hora da resistência!

Se o macho já conquistou seu posto no cume da “cadeia alimentar”, agora ele busca provar e se manter como o exemplar dominante da espécie. Embora isso se dê através de inúmeros atos que, cá entre nós, as mulheres não costumam compreender, a ação mais característica é a popular prova de resistência. É quando a relação sexual deixa de ser apenas uma busca de prazer e torna-se uma apresentação performática. O macho dominante quer resistir o máximo de tempo possível sem se entregar ao orgasmo para provar sua natureza viril e resistente.

Como nos jogos da infância, a partida deixa de ser vista como uma deliciosa diversão para tornar-se quase uma competição, uma demonstração e afirmação das habilidades do macho mor. Claro que sei que exceções existem, assim como há mulheres que adoram o jogo da resistência, mas garanto que a grande maioria não entende o propósito de tanto esforço ... parece mais uma ação de racionalização do sexo, o que é absolutamente desinteressante ao universo feminino.

Quando a fêmea percebe isso aprende uma segunda lição valiosa: para os homens sexo é assunto sério. É através dele que confirmam sua posição na tabela dos XY’s ... contam vantagem, exibem-se, afirmam-se, estabelecem seu posto perante os outros exemplares do gênero. Enquanto isso as mulheres continuam jogando por diversão, sensações e prazer... procurando na entrega apenas a felicidade despreocupada de um momento sublime que pode durar segundos, minutos ou horas ... mas para uma mulher não é exatamente o tempo que interessa ... podem acreditar!