terça-feira, 25 de março de 2008

Sábado

São tantas as caricaturas que desfilam impassíveis por entre mesas e garrafas vazias ... belos contornos transitam por entre a multidão sem nome, sem rosto, sem cor ... Candidatos do efêmero sucesso de um sábado ... pretendentes ao alívio imediato do álcool ou de uma atenção maliciosa ... Caricaturas do desejo alheio aprensetam silhuetas e formas em busca de algum remédio que adie sua dor ... oferecem sorrisos estáticos em troca de alguma mentira reconfortante ... movimentam o corpo atrás do papel principal, de um holofote direcionado por apenas um segundo.

Pernas, seios, caras e bocas ... a encenação da segurança almejada ... olhos inquietos, desesperados pela aceitação desejada ... movimentos ensaiados ... saias ... falas planejadas, repetidas ... caricatura testada ... sábado, juventude armada à sedução, amendrontada pela solidão de si mesma que sempre retorna aos domingos.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Saudade ...


Gostaria de voltar aos cinco anos, não aos últimos, mas aos primeiros ... aos primeiros cinco anos de minha vida ... Não que as coisas não estejam bem, nada disso, mas existe uma essência que é desperdiçada ou que perdemos ao longo do tempo. Existe uma visão de mundo que esquecemos, na verdade os anos vão nos cegando pouco a pouco, vão encobrindo e apagando o real brilho de nossa existência.


Eu sinto inveja dos pequenos seres que rodeiam os parques aos pulos, correndo sem pressa, escorregando sem receio de cair ... sinto inveja e saudade ... saudade de respirar o ar da infância. Se eu pudesse faria a ampulheta parar de escoar, faria os grãos voarem voltando a sua origem, brincaria de faz conta e apagaria tudo que aprendi. Não acredito que os dias nos deixem mais fortes, continuo com os mesmos medos ... o tempo só me mostrou como escondê-los, aprendi a disfarçá-los, descobri como mentir para alcançar benefícios e me proteger do resto do mundo.


Eu sinto falta do ser humano que era aos cinco anos, sinto falta da espontaneidade perdida, da falta de preocupação com o possível amanhã ... tenho saudade de chorar quando sinto vontade sem me envergonhar disso. Dizer o que penso sem escolher as palavras adequadas ou o momento certo, ir embora e deixar ir sem me sentir só ... nunca estive sozinha na infância, jamais poderia, eu tinha um mundo inteiro ao meu redor, havia tantas coisas para se ver e tocar, havia tantos sonhos para se sonhar sem qualquer obrigação de realizar.


Parece bobagem pensar sobre isso, e realmente é ... mas há alguns anos eu passava horas construindo castelos e destruindo-os, a graça estava em recomeçar, em buscar novas alternativas. Já hoje, essa idéia parece assustadora, incabível e irresponsável ... uma atitude infantil ... e, provavelmente, a mais correta.


Quero amar como se ama aos cinco anos, quero odiar como se odeia aos cinco anos, quero ser verdadeira como só se é até aos cinco anos ... o que procuro é a felicidade infante que desaprendemos a sentir.

Morte


Qual a única certeza humana? Ora essa é fácil, a morte. Todos nós temos cosciência disso, estamos cientes da finitude e da fragilidade que separa o corpo vivo da matéria morta ... o que me parece curioso é que, ainda assim, tratamos a morte como sombra indesejável da existência, somos educados à vida e não à morte, somos preparados ao incerto e não ao preciso ... no mínimo incoerente ...

Durante toda vida aprendemos a venerar o belo, a desejá-lo ... não estamos preparados para observar o rude, o feio, para encarar a deteorização da beleza que fomos condicionados a amar. Infelizmente, a morte não possui nosso padrão estetético ... ela pertuba nossa visão com cores desbotadas, com traços mal feitos e melodias estridentes ... é ela que apaga as luzes do teatro lotado e nos leva de volta a real solidão da existência.

A morte é a vizinha silenciosa que fingimos não notar ... subimos os muros para não vê-la, para que ela não seja pauta nos almoços de domingo, não queremos saber dela e rezamos para que, sendo assim, ela não se interesse por nós ... quanto ilusão ... um dia a vizinha discreta torna-se visita e ficamos atorduados por não saber recebê-la.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Um viva à polêmica

Polêmica eu?! ... é talvez ... mas honestamente isso me parece mais uma qualidade do que um defeito ... parece não, é !!! Digo isso porque nada pode ser mais triste do que a "aceitação pura", a ausência crítica, a falta de argumentos, a incapacidade de raciocínio, a dificuldade de posicionamento perante a vida ... perante ao mundo! É preciso coragem para se ter uma idéia, para defendê-la e, mais ainda, para discutí-la!

Essa semana ouvi um comentário do Bial que me parece oportuno, ele dizia, falando sobre o jornalismo, que é preciso manter sempre a capacidade de indignação diante dos fatos ... a ânsia por relatar o que a maioria prefere calar, a angústia infantil de querer entender e discutir tudo.

Creio que seja exatamente isso que o mundo anda precisando, um pouco de polêmica, um carga de indignação ... uma conscientização massiva de que é preciso fazer algo, dizer algo, movimentar algo ... afinal, já sabemos que corpos inertes tendem a se manter assim ... eternamente no mesmo lugar, do mesmo jeito ... "sem o jeito de se ajeitar" ... parados e calados sem nada a declarar!!!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Depois das duas listras tudo tornou-se ausência. Absoluta falta do sentir ... vácuo, oco, vazio ... pânico! A solidão é maior quando se está acompanhado pelo desconhecido, pela sombra sem rosto, pelo começo do fim de todo o resto ...

Duas linhas paralelas ... o que se faz com elas?