terça-feira, 29 de julho de 2008

Feliz demais

Ela é feliz, feliz demais ... um entusiasmo quase patológico. Sua felicidade que parece altiva é como uma crença descrente de si mesma, não sei se ela mesmo acredita no sorriso que lhe sorri, ele é despido de si ... deixou de ser reflexo para se tornar nexo. Será que me fiz entender?

Não é difícil perceber que falta muito dela na sua alegria diária, falta muito dela nela e no seu jeito de sentir ... falta tanto que me espanto! É quase melancólico vê-la sorrir ... parece tão distante de si que não se permite sentir, ou não sabe.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Escrevo

Meu texto é mudo, um silêncio quase egoísta de quem só escreve o que cala ou aquilo que não fala pelo mero prazer de guardar. Só escrevo sobre o oculto inaudível que a boca não consegue expressar ... só grito por gritos grafos porque estes ganham um tom de sussuro que apenas as entrelinhas alcançam.

Quando rascunho desengasgo, arranco os nós, limpo a voz, canto em silêncio para meu público fantasma. Em escrita, desafogo meus lamentos e desejos, revelo meus segredos com os lábios cerrados, com ar trancafiado nos pulmões. As palavras caladas dão cor ao silêncio e entretem a alma que, do seu jeito sem jeito, se põe a dizer.

Só ouso escrever o que emudece, o que cala a fala e estimula a prosa ou a tentaviva do verso ... falo sobre tudo, mas escrevo todo o resto ... o resto indigesto da sinceridade imperceptível à audição, o resto viscoso que se cola à garganta e não sai. Se o escrevo é porque é pesado demais para ser expelido ou deveras nocivo ao coração.