quarta-feira, 15 de abril de 2009

Janela


Minha janela enquadra a paisagem móvel do dia-a-dia. Os carros passam sem rastros nem histórias, participam de um momento único, tornam-se pinceladas em uma tela mutante, o retrato efêmero do movimento incessante que orienta a vida que se passa lá fora.

Aqui dentro, tudo que vejo são estantes entulhadas de tudo aquilo que não sei, o relógio na parede marca o tempo já não tenho e as caixas guardam restos de sonhos adiados, de tempos de um passado tão distante que já não pertencem mais a mim. Permaneço assim, imóvel, observando através da transparência, buscando proteção nos milímetros que me separam da fugacidade do que está além.

A travessia entre o cá e o lá pode ser mínima, mas a dor do ato é imensa. É preciso coragem para assumir a própria transitoriedade, a sua pequenez diante da aquarela que te prende e te apaga, do seu tudo que lá não é nada. O que persiste é apenas o movimento que te leva e descolore ... a janela distante se fecha e quando volta a abrir revela uma nova paisagem da qual já não faço mais parte.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

É Proibido Fumar!

É proibido fumar. Em todo e qualquer lugar é a mesma história. Concordo, mas em termos. Fumar em ambiente fechado é mesmo o fim, não há discussão sobre isso, já se tornou consenso até mesmo entre os fumantes. Agora, falar em chamar a polícia quando alguém estiver fumando, mesmo em ambientes abertos dentro de algum estabelecimento, é um ABSURDO. Escutei isso em algum telejornal e fiquei boquiaberta, pasma mesmo.

Na verdade, a abordagem dada e o discurso dirigido aos fumantes é inadmissível, chocante e por vezes, como toda incoerência, hilariante. O que mais me diverte é a mídia, por anos o cigarro foi enaltecido por ela, criou-se toda uma mítica sedutora em torno do ato de fumar. Lá estavam os galãs com seus cigarros no canto da boca, com olhos semi-fechados e fazendo cara de garanhão. Hoje, o cigarro passou às mãos dos “homens maus”, os vilões, moradores do submundo que aparecem envoltos em fumaça, quase um ícone de sua malignidade e posição periférica. Agora, os bons não fumam, os maus sim!

Tudo bem, dá para entender a postura adotada em função das inúmeras descobertas sobre os malefícios do cigarro, não cabe a um formador de opinião incentivar um vício tão prejudicial à saúde, ok concordamos! Entretanto é preciso que haja um equilíbrio entre a imagem de “galã” e de um “vilão”.

A meu ver o que acontece é que a mensagem de “Fumar causa câncer” foi apreendida socialmente como “Fumantes causam câncer, cuidado com eles!”. Os fumantes passaram a ser vistos como um mal social, como suicidas em potencial, pessoas que não se preocupam nem consigo nem com os outros. Poluidores de pulmões!!! Maus ... uma visão, no mínimo sombria e preconceituosa.

O que me impressiona logo de cara é, que até onde sei, o cigarro é sim uma droga, mas uma droga legalizada que gera um lucro imenso ao Estado. Ao passo que outras drogas como a maconha, por exemplo, são consideradas ilegais e, teoricamente, não reverte em qualquer benefício financeiro, pelo contrário, alimentam o tráfico de armas, as facções criminosas e são responsáveis por um custo gigantesco em programas de recuperação e segurança pública.

Apesar disso, a imagem que se vem introjetando na sociedade é de que o usuário de drogas ilícitas é uma vitima do vicio, um pobre coitado que foi aliciado para o mal, mas que deve ser respeitado, tratado e auxiliado pelo social. Fumar maconha não é caso de policia, é caso médico ... pobrezinhos, eles são reféns do sistema, do vício, dos traficantes malvados. Já os fumantes, estes não! Estes são pessoas conscientes que escolheram fazer mal a sua própria saúde e a alheia, precisam ser excluídos, colocados em fumódromos (que mais parecem jaulas), deixados do lado de fora e, mesmo assim, não em qualquer “fora” porque agora pode ser caso de polícia fumar no pátio de um restaurante, por exemplo. Isso não parece incoerente? Ou estou sendo parcial?

Sinceramente não sei a resposta, mas tenho uma sugestão: proíbam logo o cigarro, tornem o fumo uma droga ilícita. Assim o Estado estará provendo os fumantes de criminosos, suicidas e malfeitores à vítimas inocentes do sistema, do vício, dos traficantes, etc.